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Este artigo analisa criticamente os impactos multidimensionais do narcotráfico sobre comunidades indígenas na Amazônia brasileira, destacando sua articulação com crimes ambientais em um fenômeno denominado narcoecologia. A partir de abordagem interdisciplinar, que reúne o direito indigenista, a antropologia social, a sociologia da violência e os estudos de segurança, demonstra-se como facções criminosas utilizam territórios indígenas como corredores estratégicos, empregando mecanismos financeiros e logísticos que conectam economias ilícitas locais a cadeias globais de consumo. Evidencia-se que a violência do tráfico assume caráter sub-reptício, iniciando-se pela sedução e pelo clientelismo, mas evoluindo para práticas seletivas e exemplares que instauram um regime de medo, fraturam o tecido social e impõem silêncio às comunidades. São discutidas consequências como o aliciamento juvenil, a exploração sexual de mulheres e meninas, a corrupção de lideranças e a desagregação de práticas culturais e rituais. O artigo incorpora estudos de caso etnográficos e depoimentos indígenas secundários, demonstrando que os efeitos da narcoecologia configuram ameaça existencial à autonomia, à saúde e à reprodução cultural dos povos originários. Por fim, identificam-se falhas de governança estatal e propõem-se caminhos para a retomada, incluindo a garantia de direitos territoriais, o fortalecimento institucional da FUNAI e dos DSEIs, o fomento à bioeconomia e a implementação de políticas de reparação socioambiental e cultural. Conclui-se que enfrentar o narcotráfico na Amazônia requer resposta integrada, transnacional e decolonial, orientada pelo protagonismo indígena e pela justiça histórica.