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A perturbação de gaming, reconhecida pela Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como uma dependência comportamental, caracteriza-se pela perda de controlo sobre o uso de videojogos, pela priorização do gaming em detrimento de atividades essenciais e pela persistência do comportamento, apesar das consequências negativas. Está associada a uma menor qualidade de vida e a diversas comorbilidades psiquiátricas. A terapia cognitivo-comportamental (TCC), reconhecida pela sua eficácia no tratamento das dependências comportamentais, tem demonstrado ser uma abordagem terapêutica promissora. Vários ensaios clínicos e revisões da literatura sugerem que a TCC pode contribuir para reduzir o tempo despendido a jogar, assim como atenuar sintomas da perturbação e das comorbilidades associadas, nomeadamente perturbações de ansiedade e depressivas. A TCC avalia os fatores predisponentes, precipitantes e de manutenção, para identificar e gerir crenças disfuncionais e emoções negativas relacionadas com o comportamento aditivo, promovendo estratégias de coping adaptativas. Recorre a técnicas como a psicoeducação, a entrevista motivacional, a reestruturação cognitiva, a ativação comportamental, a resolução de problemas, o fortalecimento da rede de suporte e a prevenção de recaídas. Apesar dos resultados encorajadores, a investigação nesta área enfrenta limitações metodológicas. A ausência de critérios diagnósticos padronizados, a escassez de instrumentos psicométricos validados, a heterogeneidade nos protocolos terapêuticos e o número reduzido de estudos longitudinais comprometem a robustez das conclusões. A sub-representação do sexo feminino e a falta de abordagens adaptadas a diferentes faixas etárias dificultam a personalização do tratamento. É também essencial avaliar o impacto das comorbilidades psiquiátricas associadas, que podem influenciar a eficácia da TCC e exigir adaptações no plano terapêutico. Os benefícios de técnicas e modelos específicos da TCC, incluindo abordagens de terceira geração e intervenções baseadas em mindfulness, deverão ser melhor explorados. Assim, o desenvolvimento de programas de TCC adaptados à perturbação de gaming poderá constituir uma solução custo-eficaz, ao integrar estratégias direcionadas para esta condição em programas já existentes. A criação de manuais clínicos e protocolos validados, ajustados às especificidades da perturbação, seria essencial para padronizar e otimizar as intervenções, facilitando a sua aplicação na prática clínica, incluindo em instituições especializadas como o Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências (ICAD).
Published in: Revista Portuguesa de Psiquiatria e Saúde Mental
Volume 12, Issue 1, pp. 6-13
DOI: 10.51338/rppsm.668