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Background: Os quatis (Nasua nasua) são animais onívoros e diurnos, pertencentes à ordem Carnívoro e a família Procionídeos. Apesar de sua ampla distribuição pela América do Sul e da presença de numerosas populações de vida livre e de cativeiro por todas as regiões do Brasil, são escassos os relatos clínicos disponíveis sobre esses animais. Por sua vez, a prevalência de distúrbios que acometem a espécie e suas características ainda são pouco conhecidas. Objetiva-se com este relato evidenciar a importância do monitoramento minucioso desses animais por parte dos profissionais, considerando seu comportamento sutil frente a doenças. Caso: Apresentamos um caso de hiperplasia endometrial cística em uma quati. O animal, sob cuidados humanos no Zoológico Municipal de Canoas, apresentou alopecia, ressecamento da pelagem e caquexia. Um exame abrangente foi realizado, incluindo hemograma completo, perfil bioquímico e ultrassonografia. Na ultrassonografia, a imagem revelou alterações císticas difusas no corpo e nos cornos uterinos, sugestivas de hiperplasia endometrial cística. O fígado apresentava ecogenicidade levemente reduzida e os rins apresentavam pequenas imagens puntiformes espalhadas pelo parênquima, também foram observadas mineralizações em alguns recessos pélvicos, sugestivos de toxemia hepática e mineralização distrófica dos rins. O tratamento de escolha foi um ovariossalpingohisterectomia, realizado seguindo as técnicas descritas para cães e gatos. Para anestesia, o animal foi pré-medicado com cetamina 10 mg/kg, midazolam 0,5 mg/kg e metadona 0,2 mg/kg. Após 15 minutos, foi iniciada a pré-oxigenação com oxigênio a 100% a 2 L/min enquanto a veia ulnar era canulada com cateter 24G. A indução foi realizada com propofol 4 mg/kg por via intravenosa. A intubação foi realizada com tubo endotraqueal. O sistema Baraka foi conectado ao circuito, com oxigênio a 2 L/min e vaporização de isoflurano a 1%. O animal permaneceu em decúbito lateral para bloqueio do quadrado lombar guiado por ultrassonografia, utilizando bupivacaína 2 mg/kg a 0,5%, bilateralmente. Em seguida, o animal foi colocado em decúbito dorsal e realizada tricotomia da cavidade abdominal, seguida de antissepsia com álcool e clorexidina. Foi utilizada sutura de náilon em todas as camadas e realizada sutura intradérmica sem pontos externos. A cola cirúrgica também foi aplicada como medida preventiva. No pós-operatório imediato o animal recebeu meloxicam 0,1 mg/kg e dipirona 25 mg/kg por via subcutânea, juntamente com amoxicilina 22 mg/kg. O animal recuperou-se bem, sem complicações, nos dias seguintes. O órgão foi fixado em formaldeído tamponado a 10% e enviado para análise. Na avaliação macroscópica, os cornos uterinos apresentavam múltiplas áreas císticas contendo discreta quantidade de secreção mucosa marrom. A camada interna do miométrio apresentava espessamento multifocal, com infiltração de ilhas de glândulas endometriais rompidas, associado à proliferação de feixes de musculatura lisa. Achados que confirmam o diagnóstico de hiperplasia endometrial cística e indicaram uma condição concomitante de adenomiose. Discussão: O desenvolvimento de piometra e adenocarcinoma em N. nasua como resultado do uso de acetato de melengestrol foi documentado de forma semelhante a relatos em felídeos, canídeos e primatas, levantando preocupações quanto ao uso deste tipo de método contraceptivo. Este caso sublinha a importância dos exames de rotina em animais selvagens, uma vez que os seus comportamentos sutis muitas vezes mascaram as doenças que os acometem. Além do papel evidente e necessário de relatos de caso sobre as espécies silvestres, para que sejam conhecidos e estudados os parâmetros fisiológicos e as suas predisposições de distúrbios.